
Trilha 6 · A família das malhas
Capítulo 29
A família das malhas
Até aqui, percorremos três grandes famílias de tecidos planos.
Aprendemos a reconhecer:
- o equilíbrio do ligamento tela;
- as diagonais do ligamento sarja;
- as superfícies do ligamento cetim.
Agora entramos em outra lógica de construção. As malhas. Nos tecidos planos, fios se cruzam.
Nas malhas, fios formam laçadas que se ligam umas às outras. Essa mudança estrutural modifica profundamente a maneira como o tecido:
- se movimenta;
- estica;
- retorna;
- acompanha o corpo;
- responde à modelagem;
- reage à costura.
Foi justamente essa estrutura por laçadas que conhecemos anteriormente, quando estudamos as grandes diferenças entre tecidos planos e malhas. Agora nosso objetivo é outro. Não queremos mais apenas responder:
“Isto é uma malha?”
Queremos começar a perguntar:
“Que malha é esta e como ela acompanha o corpo?”
Trilha 6 · A família das malhas
Onde você está na trilha
Capítulo 29 · abertura da trilha
Uma família muito diversa
A palavra malha é ampla. Dizer que uma roupa será confeccionada em malha ainda nos conta muito pouco sobre o resultado. Uma malha pode ser:
- fina;
- encorpada;
- firme;
- muito elástica;
- pouco elástica;
- fluida;
- estruturada;
- macia;
- canelada;
- lisa;
- térmica;
- fresca.
Pode funcionar em uma camiseta básica. Pode formar uma gola que precisa retornar ao lugar. Pode produzir um pijama muito macio.
Pode sustentar uma calça. Pode criar um vestido extremamente fluido. Pode aquecer em um moletom.
Pode acompanhar uma peça ajustada ao corpo. Por isso, assim como aprendemos a não tratar todos os tecidos planos como iguais, também não devemos imaginar que exista um único comportamento chamado malha.
Malha é a família.
O comportamento de cada malha é que determina sua função.
O que une esta família
Apesar das diferenças, existe uma base comum. As malhas são construídas por laçadas interligadas. Essa organização permite que a estrutura se modifique quando o tecido é tensionado.
As laçadas podem se abrir, alterar sua forma e depois retornar, em maior ou menor grau. É por isso que muitas malhas apresentam elasticidade mesmo sem possuir elastano. Essa elasticidade é chamada de elasticidade estrutural.
Uma malha 100% algodão, por exemplo, pode esticar simplesmente porque sua construção permite o movimento das laçadas. Se houver elastano, esse comportamento poderá ser ampliado. Mas:
malha não é sinônimo de elastano.
E:
elastano não é a única razão pela qual uma malha estica.
Essa distinção será essencial durante todo este bloco.

Esticar não basta
Quando começamos a observar malhas, é muito fácil fazer apenas um teste: puxar o tecido. Mas descobrir que ele estica não é suficiente.
Precisamos observar outra característica:
Recuperação
Recuperação é a capacidade que o tecido possui de voltar à sua forma depois de ser alongado. Imagine duas malhas. As duas esticam bastante.
A primeira volta rapidamente à medida inicial. A segunda permanece um pouco alargada. À primeira vista, ambas parecem muito elásticas.
Durante o uso, entretanto, podem produzir roupas completamente diferentes. Uma malha com recuperação insuficiente pode:
- abrir no decote;
- alargar na cintura;
- formar bolsas nos joelhos;
- crescer no quadril;
- deformar punhos;
- perder a forma ao longo do dia.
Uma malha pode alongar muito e recuperar pouco, enquanto outra alonga menos e retorna quase completamente. Por isso, durante este bloco, nossa pergunta não será apenas:
“Quanto estica?”
Também perguntaremos:
“Depois de esticar, quanto volta?”
Elasticidade e recuperação não são a mesma coisa
Esses dois conceitos precisam permanecer separados.
Elasticidade ou alongamento
Mostra quanto o tecido consegue aumentar de tamanho quando é tensionado.
Recuperação
Mostra quanto ele consegue retornar depois que essa tensão desaparece. Uma malha pode:
- esticar muito e recuperar bem;
- esticar muito e recuperar mal;
- esticar pouco e recuperar muito bem;
- praticamente não esticar em determinada direção.
Esse comportamento interfere diretamente na escolha da modelagem.

Em qual direção a malha estica?
Outro aspecto fundamental é a direção. Nem todas as malhas esticam da mesma maneira. Algumas apresentam maior elasticidade:
- na largura;
outras também apresentam bastante elasticidade:
- no comprimento.
Existem ainda malhas que oferecem movimento significativo nas duas direções. Identificar a direção de maior elasticidade antes do corte é essencial, porque ela interfere diretamente na modelagem e no conforto da peça. Por isso, daqui para frente, sempre que observarmos uma malha, faremos dois testes separados.
Teste na largura
Segure uma pequena medida do tecido. Estique sem forçar. Solte.
Observe:
- quanto aumentou;
- se voltou;
- se ondulou;
- se abriu entre os pontos.
Teste no comprimento
Repita o mesmo processo. Compare. Essa simples diferença já pode explicar muito sobre o uso daquele tecido.
A malha precisa ser observada em movimento
Um tecido plano pode revelar muitas informações enquanto está repousado sobre a mesa. Com as malhas, isso não basta. Precisamos observá-las:
- paradas;
- esticadas;
- depois de soltas;
- contra a luz;
- suspensas;
- dobradas.
A malha muda quando entra em tensão. Uma superfície aparentemente opaca pode se tornar transparente. Uma malha que parece firme pode perder estrutura.
Outra pode parecer pequena e se expandir bastante. Uma malha canelada pode abrir entre as nervuras. Por isso:
A malha precisa ser observada da maneira como será usada: em movimento.
Oito perguntas para começar a ler uma malha
Durante os próximos capítulos, utilizaremos alguns critérios repetidamente. São eles:
1. Quanto ela estica?
Pouco? Moderadamente? Muito?
2. Em qual direção?
Mais na largura? Também no comprimento?
3. Como ela recupera?
Volta rapidamente? Permanece deformada?
4. Qual é sua gramatura?
É:
- leve;
- média;
- encorpada?
5. Quanto cobre?
Permanece opaca quando relaxada? E quando esticada?
6. Como cai?
É:
- mole;
- fluida;
- firme;
- pesada;
- estruturada?
7. Quão estável é?
Permanece relativamente parada durante o corte? Ou se desloca e deforma facilmente?
8. Qual é sua função?
Ela serve principalmente para:
- acompanhar;
- retornar;
- aquecer;
- estruturar;
- dar fluidez;
- oferecer maciez?
Essas perguntas serão mais úteis do que tentar decorar nomes isoladamente.
Gramatura nas malhas
A gramatura continua sendo importante. Assim como nos tecidos planos, ela nos ajuda a compreender quanto material existe em determinada área do tecido. Mas, nas malhas, precisamos relacioná-la à elasticidade.
Uma malha muito fina pode parecer adequada quando está relaxada e ficar bastante transparente ao ser esticada. Outra, mais encorpada, pode oferecer:
- maior cobertura;
- sustentação;
- sensação de segurança;
- volume.
Isso interfere diretamente em peças como:
- leggings;
- vestidos ajustados;
- calças;
- bodies;
- camisetas.
Não existe uma gramatura melhor.
Existe uma gramatura coerente com a função.
Cobertura
Nas malhas, observar transparência apenas com o tecido parado pode enganar. Faça dois testes.
Relaxada
Coloque a malha contra a luz. Observe quanto consegue enxergar através dela.
Esticada
Alongue suavemente o mesmo trecho. Observe novamente. As laçadas se abriram?
O tecido ficou mais transparente? A cor pareceu menos intensa? Essa informação é especialmente importante para peças que ficarão tensionadas sobre:
- busto;
- quadril;
- glúteos;
- joelhos.
Uma malha precisa oferecer cobertura na condição em que será usada, não apenas quando está parada sobre a mesa.

Estabilidade
Nem toda malha é extremamente instável. Existem malhas:
- muito fluidas;
- muito móveis;
e também outras:
- firmes;
- densas;
- relativamente fáceis de controlar.
O ponto Roma, por exemplo, pertence a este universo e pode apresentar bastante estabilidade. A viscolycra ocupa outro extremo, privilegiando fluidez. Por isso, não devemos aprender:
“malha é difícil de cortar”.
Devemos aprender:
“algumas malhas exigem mais controle do que outras.”
Essa diferença será observada tecido por tecido.
Caimento
As malhas não apresentam um único tipo de caimento. Podemos encontrar:
Malhas que acompanham
Vestem próximas ao corpo e respondem aos movimentos.
Malhas que escorrem
Formam dobras suaves e privilegiam fluidez.
Malhas que sustentam
Oferecem mais corpo e mantêm formas mais limpas.
Malhas que criam volume
A espessura participa visualmente da peça. Essa variedade explica por que uma camiseta, um vestido fluido, uma calça e um moletom podem pertencer à mesma grande família têxtil. Meia malha, ribana, ponto Roma, moletom e outras malhas podem apresentar comportamentos profundamente diferentes mesmo pertencendo ao mesmo universo estrutural.
Toque
A maciez costuma chamar muita atenção quando compramos malha. Mas ela não deve decidir sozinha. Uma malha muito macia pode:
- ter pouca recuperação;
- ser transparente;
- deformar;
- formar bolinhas;
- crescer durante o uso.
Outra, um pouco mais firme, pode apresentar excelente comportamento na peça. Por isso:
Maciez é uma característica. Não é garantia de adequação.
Sempre relacione o toque a:
- recuperação;
- cobertura;
- gramatura;
- estabilidade;
- uso.
As bordas
Algumas malhas enrolam depois de cortadas. Esse comportamento está relacionado à própria construção. Pode aparecer de maneira discreta ou intensa.
Ao observar uma malha, veja:
- a borda cortada enrola para o direito?
- para o avesso?
- permanece relativamente plana?
Isso interfere principalmente em:
- corte;
- marcação;
- montagem;
- barras.
O enrolamento não significa que o tecido seja ruim. É apenas mais uma informação sobre seu comportamento.
Malha e elastano
Este ponto merece atenção especial. Encontraremos diversas malhas com elastano. Ele pode melhorar:
- alongamento;
- conforto;
- recuperação.
Mas sua presença não garante automaticamente uma boa malha. Uma malha com elastano ainda pode:
- ser transparente;
- ter pouca cobertura;
- ser fina demais;
- formar bolinhas;
- ter toque desagradável;
- deformar;
- não funcionar para o projeto.
Portanto, não escolha uma malha apenas porque a etiqueta informa elastano.
Teste o tecido.
Composição
Assim como nos tecidos planos, a fibra modifica o comportamento. Podemos encontrar malhas produzidas com:
- algodão;
- viscose;
- poliéster;
- poliamida;
- elastano;
- misturas.
A composição pode influenciar:
- toque;
- absorção;
- aquecimento;
- secagem;
- amassamento;
- recuperação;
- manutenção.
Mas ela não trabalha sozinha. Uma malha de algodão não se comportará como uma tricoline de algodão. A fibra pode ser a mesma.
A estrutura é diferente. Essa é uma demonstração muito clara de um dos princípios centrais deste guia:
A fibra participa do comportamento.
A construção transforma esse comportamento.
Malha e tecido plano
A comparação entre essas duas grandes estruturas ajuda a organizar o olhar.
| Tecido plano | Malha |
|---|---|
| Construído pelo entrelaçamento de fios | Construída por laçadas |
| Geralmente mais estável | Geralmente mais flexível |
| Normalmente possui pouca elasticidade estrutural | Pode apresentar elasticidade estrutural |
| Modelagem depende bastante de folga | Pode permitir menor folga ou redução |
| Costura pode ser pouco elástica | Costura frequentemente precisa acompanhar o alongamento |
| Tende a manter formas com maior facilidade | Tende a acompanhar mais o corpo |
Essas são tendências gerais. Existem tecidos planos com elastano. Existem malhas bastante firmes.
Por isso, essa tabela ajuda a entender a lógica, mas não substitui a observação do tecido real.
A modelagem muda
Talvez essa seja uma das maiores diferenças práticas. Em muitos tecidos planos, precisamos fornecer espaço para o corpo se movimentar. Essa folga pode aparecer na forma de:
- vestibilidade;
- pences;
- recortes;
- aberturas;
- zíperes;
- botões.
Nas malhas, parte desse espaço pode ser oferecida pela própria elasticidade do tecido. Isso permite que determinadas peças sejam construídas:
- com pouca folga;
- com folga zero;
- ou até com medidas menores do que o corpo.
Mas isso não significa que toda malha possa receber a mesma redução. Uma ribana aceita reduções diferentes de um ponto Roma, e cada estrutura precisa ser relacionada à modelagem. Essa será uma das ideias mais importantes deste bloco:
O molde não deve apenas saber que o tecido é malha.
Precisa saber que malha é essa.
Folga positiva, zero e negativa
Nas malhas, três ideias aparecem com frequência.
Folga positiva
A peça possui medidas maiores que o corpo. Pode ser utilizada em:
- camisetas soltas;
- moletons;
- pijamas amplos.
Folga zero
A peça se aproxima das medidas do corpo. A elasticidade permite movimento sem necessariamente comprimir.
Folga negativa
A peça possui determinadas medidas menores que as do corpo. O tecido precisa se alongar para vestir. Esse recurso depende diretamente de:
- elasticidade;
- recuperação;
- cobertura;
- conforto.
Uma malha que estica muito, mas não recupera, pode não funcionar bem com redução.
A costura também precisa se movimentar
Se a malha estica, algumas costuras precisam acompanhar. Uma costura rígida em uma área que precisa se expandir pode romper. Por isso, peças de malha podem utilizar:
- overloque;
- pontos elásticos;
- determinados pontos disponíveis na máquina doméstica;
- outras construções compatíveis.
Quando o tecido estica, a costura precisa acompanhar esse movimento.
Não significa que toda costura em malha precise ser extremamente elástica. A exigência depende da região da peça. Mas precisamos perguntar:
“Esta costura será tensionada durante o uso?”
A agulha
Malhas também exigem atenção à escolha da agulha. O objetivo é atravessar a estrutura sem danificar desnecessariamente as laçadas. A escolha dependerá da malha específica e de sua gramatura.
Por isso, durante os próximos capítulos, não utilizaremos uma regra única para todas. A melhor prática continua sendo:
- escolher uma agulha compatível;
- testar em retalho;
- observar a formação dos pontos.
Se aparecem:
- pontos falhados;
- furos;
- rompimentos;
algo precisa ser revisto antes da peça definitiva.
Não estique durante a costura
Um problema bastante comum acontece quando quem costura tenta “ajudar” o tecido a passar pela máquina puxando-o. Quando a malha volta à posição natural, a costura pode apresentar:
- ondas;
- deformação;
- aumento de comprimento.
As mãos devem orientar.
O transporte da máquina deve fazer o avanço.
Existem exceções técnicas em que algum alongamento é intencional, mas isso será tratado quando necessário.
Estabilizar não significa endurecer
Algumas regiões de uma peça de malha precisam manter determinada medida. Podemos querer controlar:
- ombros;
- decotes;
- aberturas;
- algumas costuras;
- determinados cós.
Nessas situações, estabilizar significa controlar a deformação onde ela não é desejada. Não significa retirar toda a elasticidade da peça. O objetivo é preservar equilíbrio.
As malhas que conheceremos
Neste bloco, estudaremos oito referências importantes. Cada uma mostrará uma maneira diferente de interpretar a construção por laçadas.
Meia malha — simplicidade
É uma das referências mais comuns do vestuário cotidiano. Aparece especialmente em:
- camisetas;
- blusas;
- pijamas;
- roupas infantis.
Pode apresentar grande variação de:
- gramatura;
- composição;
- qualidade;
- recuperação.
Palavra-chave: Cotidiano
Cotton — elasticidade com recuperação
O cotton aparece com frequência em peças que precisam acompanhar melhor o corpo. Muitas versões combinam algodão e elastano. Pode ser utilizado em:
- camisetas ajustadas;
- bodies;
- roupas infantis;
- peças confortáveis.
Seu comportamento precisa ser observado principalmente pela capacidade de esticar e voltar.
Palavra-chave: Recuperação
Ribana — retorno
A ribana possui forte relação com:
- golas;
- punhos;
- barras;
- cós.
Sua identidade não está apenas no aspecto canelado. O mais importante é sua capacidade de:
- expandir;
- acompanhar;
- retornar.
Por isso, nem toda malha canelada substitui uma boa ribana.
Palavra-chave: Retorno
Suedine — maciez
O suedine é frequentemente associado a:
- toque suave;
- conforto;
- peças infantis;
- pijamas.
Mas a maciez não deve esconder outros critérios. Precisaremos observar:
- estabilidade;
- recuperação;
- gramatura;
- comportamento na lavagem.
Palavra-chave: Maciez
Moletom — aconchego
O moletom amplia a espessura e o volume dentro dessa família. Pode apresentar avesso:
- felpado;
- flanelado;
- ou com outra textura, conforme a versão.
É comum em:
- blusões;
- casacos;
- calças;
- roupas de frio.
Aqui, observaremos especialmente:
- peso;
- aquecimento;
- volume das costuras;
- acabamento com ribana;
- possibilidade de encolhimento.
Palavra-chave: Aconchego
Malha canelada — textura e ajuste
A superfície marcada por nervuras cria uma identidade própria. Pode ser usada em:
- regatas;
- blusas;
- vestidos;
- peças ajustadas;
- conjuntos.
Mas precisamos observar o que acontece quando o tecido é esticado. As nervuras:
- abrem?
- revelam transparência?
- retornam bem?
Palavra-chave: Textura
Viscolycra — fluidez
A viscolycra ocupa uma posição muito diferente. Sua identidade está ligada a:
- toque macio;
- queda;
- movimento;
- fluidez.
Pode produzir:
- blusas;
- vestidos;
- saias;
- peças amplas.
Mas sua fluidez precisa ser observada junto a:
- recuperação;
- transparência;
- crescimento;
- deformação.
Palavra-chave: Fluidez
Ponto Roma — estrutura confortável
O ponto Roma mostra que uma malha também pode ter presença e estabilidade. Tende a apresentar:
- mais corpo;
- boa cobertura;
- caimento controlado;
- aparência mais organizada.
Pode ser usado em:
- vestidos;
- saias;
- calças;
- blusas encorpadas;
- conjuntos;
- blazers leves.
Ele será especialmente importante para desmontar a ideia de que toda malha é “mole”.
Palavra-chave: Estrutura
Um primeiro mapa da família
Podemos começar a guardar uma imagem mental simples:
| Malha | O que observar primeiro |
|---|---|
| Meia malha | comportamento geral |
| Cotton | recuperação |
| Ribana | retorno |
| Suedine | maciez |
| Moletom | volume e aquecimento |
| Malha canelada | textura e abertura |
| Viscolycra | fluidez e deformação |
| Ponto Roma | estrutura e cobertura |
Esse quadro não resume completamente cada tecido. Ele apenas oferece uma primeira referência. Os próximos capítulos aprofundarão cada um.
Um mesmo projeto pode mudar completamente
Imagine uma camiseta. Ela pode ser confeccionada em meia malha. Pode ser feita em cotton.
Pode usar malha canelada. Em determinados modelos, até um ponto Roma pode ser utilizado. Mas a camiseta não será a mesma.
A meia malha pode produzir uma peça básica. O cotton pode aproximá-la mais do corpo. A canelada modifica textura e ajuste.
O ponto Roma acrescenta corpo. O mesmo acontece com um vestido. Em viscolycra, pode escorrer.
Em ponto Roma, pode sustentar. Por isso:
Escolher a malha é também escolher como a modelagem será interpretada.
O olhar de quem costura
Ao entrar em uma loja e encontrar uma malha, não comece perguntando apenas:
“Qual o nome?”
Comece pelas mãos. Estique. Solte.
Observe. Depois pergunte:
- quanto estica?
- em qual direção?
- volta?
- abre?
- fica transparente?
- enrola?
- cai?
- sustenta?
- é pesada?
- é macia?
- tem cobertura?
Só depois relacione essas respostas ao nome comercial. A escolha deve considerar elasticidade, recuperação, gramatura, cobertura, toque, caimento, estabilidade, acabamento e uso real.
Antes de comprar
Abra uma parte do tecido. Não avalie apenas o pedaço preso ao rolo. Faça uma pequena sequência.
Estique na largura
Observe quanto cede.
Solte
Veja se retorna.
Estique no comprimento
Compare com a largura.
Coloque contra a luz
Observe a cobertura.
Estique contra a luz
Veja se as laçadas se abrem.
Suspenda
Observe o caimento.
Veja as bordas
Elas enrolam?
Toque
A maciez corresponde ao uso pretendido?
Leia a composição
Ela ajuda a explicar o comportamento?
Imagine a peça
Ela ficará:
- justa?
- solta?
- pesada?
- quente?
- fluida?
- estruturada?
Comprar malha exige imaginar seu comportamento no corpo, na costura e depois da lavagem — não apenas julgá-la parada sobre a mesa.
Uma prática simples
Escolha duas peças de malha que já tenha em casa. Por exemplo:
- duas camisetas;
- uma camiseta e uma legging;
- um pijama e uma blusa;
- uma peça de moletom e uma camiseta.
Não precisamos saber os nomes dos tecidos.
1. Estique na largura
Qual estica mais?
2. Solte
Qual volta melhor?
3. Estique no comprimento
O comportamento mudou?
4. Observe contra a luz
Qual oferece maior cobertura?
5. Estique contra a luz
Alguma ficou mais transparente?
6. Suspenda
Qual cai? Qual sustenta?
7. Observe as bordas ou costuras internas
O tecido tende a enrolar?
8. Relacione ao uso
Pergunte:
“Por que cada uma dessas malhas funciona na peça em que foi usada?”
Esse é o início do estudo desta família.
Não precisamos nomear primeiro.
Precisamos aprender a perceber.
Erros comuns
Pensar que toda malha estica muito
O grau de elasticidade varia.
Acreditar que toda malha possui elastano
A própria estrutura pode produzir elasticidade.
Observar apenas quanto estica
A recuperação é tão importante quanto o alongamento.
Escolher apenas pela maciez
Uma malha agradável ao toque pode não sustentar a peça.
Ignorar a transparência sob tensão
Algumas malhas parecem opacas até serem esticadas.
Utilizar a mesma modelagem em qualquer malha
Elasticidade e recuperação modificam a vestibilidade.
Tratar toda malha como instável
Existem construções bastante firmes.
Usar uma costura que não acompanha o movimento
Ela pode romper quando a peça é vestida.
Confundir elastano com qualidade
A presença da fibra não garante bom comportamento.
Maciez, elastano e simples capacidade de esticar nunca devem ser analisados isoladamente.
Guia de decisão
Ao escolher uma malha, comece pela função que o projeto exige.
Para uma camiseta básica
Procure:
- conforto;
- cobertura;
- estabilidade suficiente;
- caimento adequado.
Para uma peça ajustada
Observe principalmente:
- elasticidade;
- recuperação;
- cobertura.
Para gola ou punho
O retorno é essencial.
Para pijama
Observe:
- maciez;
- conforto térmico;
- respirabilidade;
- movimento.
Para roupa de frio
Considere:
- espessura;
- volume;
- aquecimento.
Para vestido fluido
Procure:
- caimento;
- movimento;
- recuperação suficiente para manter a forma.
Para calça ou vestido mais estruturado
Observe:
- corpo;
- cobertura;
- estabilidade;
- recuperação.
A pergunta que acompanhará todo este bloco será:
“Esta malha acompanha o corpo da maneira que o projeto precisa sem perder a forma?”
Resumo técnico
| Característica | Família das malhas |
|---|---|
| Estrutura | Laçadas interligadas |
| Elasticidade | Variável; pode existir sem elastano |
| Recuperação | Fundamental para avaliar desempenho |
| Direção do alongamento | Pode variar entre largura e comprimento |
| Gramatura | De muito leve a encorpada |
| Cobertura | Deve ser observada também sob tensão |
| Caimento | De muito fluido a estruturado |
| Estabilidade | Muito variável |
| Bordas | Algumas construções tendem a enrolar |
| Modelagem | Diretamente relacionada à elasticidade e recuperação |
| Costura | Precisa ser compatível com o movimento necessário |
| Composição | Algodão, viscose, poliéster, poliamida, elastano e misturas |
| Usos | Do vestuário básico às peças estruturadas, esportivas, infantis e de frio |
Em síntese
A família das malhas é a família do corpo em movimento.
Sua construção por laçadas permite:
- flexibilidade;
- elasticidade;
- adaptação;
- conforto.
Mas cada malha interpreta essas possibilidades de uma maneira. A meia malha nos mostrará o cotidiano. O cotton, a recuperação.
A ribana, o retorno. O suedine, a maciez. O moletom, o aconchego.
A malha canelada, a textura. A viscolycra, a fluidez. O ponto Roma, a estrutura confortável.
O olhar iniciante percebe que a malha estica. O olhar atento observa se ela volta. E quem aprende a ler malhas começa a entender como o tecido acompanhará o corpo antes mesmo de cortar.
O que este capítulo acrescentou ao seu repertório
Depois deste capítulo, você é capaz de reconhecer as malhas como uma grande família construída por laçadas. Você compreende que sua elasticidade pode nascer da própria estrutura e não apenas da presença de elastano. Você começa a diferenciar:
- alongamento;
- recuperação;
- gramatura;
- cobertura;
- estabilidade;
- caimento.
Também compreende que a palavra malha não define sozinha como uma roupa irá vestir. É necessário investigar qual malha está diante de nós. A partir de agora, quando encontrar uma malha, você não perguntará apenas:
“Ela estica?”
Começará a perguntar:
“Quanto estica?”
“Em qual direção?”
“Quanto volta?”
“Como cai?”
“Quanto cobre?”
“O que acontece quando entra em tensão?”
“Esse comportamento combina com minha peça?”
Esse é o olhar que permitirá compreender todos os tecidos deste bloco.